Meus anjos da guarda são dois. Um fala agora, o outro depois.
Este que agora fala e toma a mão e a caneta, garante um momento justo, com texto de opereta e junta rimas a esmo ou aforismos vulgares, que vêm de tantos lugares que nem os anjos se lembram, mas tocam em frente o processo.
– Escreva-se outro verso!
E minha mão obedece cegamente, comportada, e mesmo que não diga nada, no fim o texto me intriga.
O outro anjo me escuta, pondera, discute comigo, aconselha como amigo a escolher cada palavra, evitando o perigo de registrar cegamente as coisas que vêm à mente e comprometem depois.
Eu tenho muitos amigos, mas anjos da guarda, só dois.
Um deles volta à carga e me mantém escrevendo e fumando e bebendo. Sou só o seu instrumento de mensagens imediatas, de conclusões provisórias que, se não contam histórias, também não são um lamento.
Mais uma vez, protegido, retorno à consciência. Deus salve a providência de me dar tais companhias. Tenho uma história simples, uma família normal, tenho amigos, colegas e um afeto especial. Tenho coisas diferentes, às vezes incompatíveis, milhares de neurônios e um violão meio velho que comigo se indispôs.
Tenho um milhão de motivos, mas, anjos da guarda, só dois.
Rogo pragas criativas: “pedaço de asno”, xingo. No sábado ou no domingo e às vezes pela semana, digo que vou à merda e ofereço carona. Mas me comporto direito. Se me falhar a caneta, levanto e vou à gaveta. Paro no bar, me abasteço, me dou tudo o que mereço e não reclamo depois.
Eu tenho muitos defeitos, mas anjos da guarda, só dois.
Me rendo à fadiga do corpo, à meditação necessária. Paro, limpo a área e vou descansar, finalmente. Acendo o último cigarro, procuro o último gole. Viver assim, não é mole, mas tudo sempre se encontra no lugar onde se pôs.
Vamos dormir. Boa noite
Eu e meus anjos. Os dois.